quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Até quando?

Foto: Shin Shikuma/UOL

Hoje vou divulgar um texto da amiga Shayene Metri, publicado em nota no facebook. A Shayene é repórter do Jornal do Campus da USP e está cobrindo as movimentações atuais. Por conta disso, estava no momento da reintegração de posse da reitoria pela PM e relatou como foi. Vale a pena a leitura de cada linha.
Aliás, já digo de antemão que o JC está fazendo a cobertura mais honesta que vi sobre o assunto. Recomendo fortemente a leitura, para que possamos ver o que realmente está acontecendo, sem o filtro podre da grande mídia. O twitter para acompanhar é @jornaldocampus e o Facebook é /jornaldocampus

Antes de chegar no texto, só mais uma contextualização: Em uma assembléia realizada na semana passada, na USP, quando só a administração da FFLCH estava ocupada, os estudantes votaram CONTRA a ocupação da reitoria. A assembleia foi marcada por rixas políticas dos vários movimentos da USP, que disputavam espaço. Após a maioria dos presentes ir embora, foi realizada uma nova votação e decidiu-se pela ocupação da reitoria, passando por cima de uma decisão já feita. Muitos estudantes, aonde eu me incluo, são contra a ocupação por causa disso. Embora eu tenha outras críticas, é importante notar que essa ocupação foi decidida de maneira não-democrática, mas que os ocupantes NÃO estavam discutindo sobre maconha (como explicado no meu post anterior), e sim sobre questões muito mais profundas. E concordando ou não com a ocupação, eles são estudantes com direito a protestar pelo o que acham justo e nada justifica o tratamento dado a eles. (e nem aos MORADORES do CRUSP. Porque sim, os policiais resolveram ir até lá e bloquear a saída das próprias casas deles para impedir que se juntassem aos protestos, jogando bombas. Na região em que moram mães com seus filhos, inclusive.).
Mas vamos lá, isso a Shayene pode explicar melhor.

Cheguei na USP às 3h da manhã, com um amigo da sala. Ia começar o nosso 'plantão' do Jornal do Campus. Outros dois amigos já estavam lá. A ideia era passar a madrugada lá na reitoria, ou pelas redondezas. 1) para entender melhor a ocupação, conhecer e poder escrever melhor sobre isso tudo. 2) para estarmos lá caso a PM realmente aparecesse para dar um fim à ocupação.
Conversa vai, conversa vem. O tempo da madrugava passava enquanto ficávamos lá fora, na frente da reitoria, conversando com alunos da ocupação. Alguns com posicionamentos bem definidos (ou inflexíveis), outros duvidando até das próprias atitudes. A questão é: os alunos estavam lá e queriam chamar atenção para a causa (ou as causas, ou nenhuma causa)...e, por enquanto, era só. Não havia nada quebrado, depredado ou destruído dentro da tão requisitada reitoria (a única marca deles eram as pixações). A ocupação era organizada, eles estavam divididos em vários núcleos e tinham medidas pra preservar o ambiente. Aliás, nada de Molotov.
Mais conversa foi jogada fora, a fogueira que aquecia se apagou várias vezes e eu levantei a pergunta pra alguns deles: e se a PM realmente aparecesse lá logo mais? Seria um tiro no pé dela? Ela sairia como herói? Os poucos que conversavam comigo (eram uns 4, além dos amigos da minha sala) ficaram divididos. "Do jeito que a mídia está passando as coisas, eles vão sair como heróis de novo", disse um. "Se ele vierem vai ter confronto e isso já vai ser um tiro no pé deles", disse outra. Mas, numa coisa eles concordavam: poucos acreditavam que a PM realmente ia aparecer.
Eu achava que a PM ia aparecer e muito provavelmente isso que me fez ficar acordada lá. Não demorou muito e, pronto, muita coisa apareceu. A partir daí, meu relato pode ficar confuso, acho que ainda não vou conseguir organizar tudo que eu vi hoje, 08 de novembro.
Muitos PMs chegaram, saindo de carros, motos, ônibus, caminhões. Apareceram helicópteros e cavalaria. Nem eu e, acredito, nem a maior parte dos presentes já tinham visto tanto policial em ação. Estávamos em 5 pessoas na frente da reitoria. Dois estudantes que faziam parte da ocupação, eu e mais 2 amigos da minha sala, que também estavam lá por causa do JC. Assim que a PM chegou, tudo foi muito rápido:

os alunos da ocupação que estavam com a gente sugeriram: "Corram!", enquanto voltavam para dentro da reitoria. Os dois amigos que estavam comigo correram para longe da Reitoria, onde a imprensa ainda estava se posicionando para o show. Eu, sabe-se lá por qual motivo, joguei a minha bolsa para um dos meninos da minha sala e voltei correndo para frente da reitoria, no meio dos policiais que avançavam para o Portão principal [e único] da ocupação.
Tentei tirar fotos e gravar vídeos de uma PM que estava sendo violenta com o nada, para nada. Os policiais quebravam as cadeiras no carrinho, faziam questão do barulho, da demonstração da força. Os crafts com avisos dos estudantes, frases e poemas eram rasgados, uma éspecie de símbolo. Enquanto tudo isso acontecia, parte da PM impedia a imprensa de chegar perto da área, impedindo que os repórteres vissem tudo isso. Voltando para confusão onde eu tinha me enfiado: os PMs arrombaram a porta principal, entraram (um grupo de mais ou menos 30, eu acho) e, logo em seguida, fecharam o portão. Trancaram-se dentro da reitoria com os alunos. Coisa boa não era.
Depois disso, o outro grupo de PMs,que impedia a mídia de se aproximar dessas cenas que eu contei , foi abrindo espaço. Quer dizer, não só abrindo espaço, mas também começando (ou fortalecendo) uma boa camaradagem para os repórteres que lá estavam atrás de cenas fortes e certezas.
"Me sigam para cá que vai acontecer um negócio bom pra filmar ali agora", disse um dos militares para a enxurrada de "jornalistas".
A cena era um terceiro grupo de PMs, arrombando um segunda porta da reitoria, sob a desculpa de que queria entrar. O repórter da Globo me perguntou (fui pra perto deles depois da confusão em que me meti com os policiais no início): "os PMs já entraram, não? Por que eles tão tentando por aqui também?". Respondi: "sim, já entraram. E provavelmente estão fazendo essa cena pra vocês terem algum espetáculo pra filmar" 
A palhaçada organizada pelos policiais e alimentada pelos repórteres que lá estavam continuou por algumas horas. A imprensa ia contornando a reitoria, na esperança de alguma cena forte. Enquanto isso, PM e alunos estavam juntos, dentro da Reitoria, sem ninguém de fora poder ver ou ouvir o que se passava por lá. Quem tentasse entrar ou enxergar algo que se passava lá na Reitoria, dava de cara com os escudos da tropa de choque, até o fim.
Enquanto amanhecia, universitários a favor da ocupação, ou contra a PM ou simplesmente contra toda a violência que estava escancarada iam chegando. Os alunos pediam para entrar na reitoria. Eu pedia para entrar na reitoria. Tudo que todo mundo queria era saber o que realmente estava acontecendo lá dentro. A PM não levava os estudantes da ocupação para fora e o pedido de todo mundo era "queremos algo às claras". Por que ninguém pode entrar? Por que ninguém pode sair?
Enquanto os alunos que estavam do lado de fora clamavam para entrar, ouvi de um grupo de repórteres (entre eles, SBT): "Não vamos filmar essas baboseiras dos maconheiros não! O que eles pedem não merece aparecer". Entre risadas, pra não perder o bom humor. Além dos repórteres que já haviam decidido o que era verdade ou não, noticiável ou não, tinham pessoas misturadas a eles, gritando contra os estudantes, xingando. Eu mesma ouvi muitas e boas como "maconheirazinha", "raça de merda" e "marginal" . 
Os estudantes que enfrentavam de verdade os policiais que faziam a 'corrente' em torno da Reitoria eram levados para dentro. Em questões de segundos, um estudante sumia da minha frente e era levado pra dentro do cerco. Para sabe-se lá o que.
Lá pras 7h30, depois de muito choro, puxões e algumas escudadas na cara, comecei a ver que os PMs estavam levando os estudantes da ocupação para dentro dos ônibus. Uma menina foi levada de maneira truculenta, essa foi a única coisa que meu 1,60m de altura conseguiu ver por trás de uma corrente da tropa de choque. Enquanto eu tentava entrar no cerco, para entender a história, a grande mídia já estava lá dentro. Fui conversar com um militar, explicar da JC. Ouvi em troca "ai, é um jornal da usp. De estudantes, não pode. Complica".
Os ônibus com os alunos presos saíram da USP. Uma quantidade imensa de outros alunos gritavam com a PM. Eu e os dois amigos da minha sala (aqueles da madrugada) pegamos o carro e fomos para a DP.
Na DP, o sistema era o mesmo e meu cansaço e raiva só estavam maiores. Enjoo e dor de cabeça, era o meu corpo reagindo a tudo que eu vi pela manhã. Alunos saiam de 5 em 5 do ônibus para dentro da DP. Jornalistas amontoados. Familiares chegando. Alunos presos no ônibus, sem água, sem banheiro, sem comida, mas com calor. Pelo menos por umas 3h foi assim.
Enquanto a ficha caia e eu revisualizava todo o horror da reintegração de posse, outras pessoas da minha sala mandavam mensagens para gente, de como a grande imprensa estava cobrindo o caso. Um ato pacífico, né Globo? Não foi bem isso o que eu vi, nem o que o JC viu, nem o que centenas de estudantes presenciaram.

Enfim, sou contra a ocupação. Sempre tive várias críticas ao Movimento Estudantil desde que entrei na USP. Nunca aceitei a partidarização do ME. Me decepciono com a falta de propostas efetivas e com as discussões ultrapassadas da maioria das assembléias. Mas, nada, nada mesmo, justifica o que ocorreu hoje. Nada pode ser explicação pra violência gratuita, pro abuso do poder e, principalmente, pela desumanização da PM.
Não costumo me envolver com discussões do ME, divulgar textos ou participar ativamente de algo político do meio universitário. Mas, como poucos realmente sabem o que aconteceu hoje (e eu acredito que muita coisa vai ser distorcida a partir de agora, por todos os lados), achei que valeria a pena escrever esse texto. Taí o que eu vi.
 Pavoroso, né? Pois é, e ainda circulam internamente muito mais boatos sobre o que aconteceu nesse momento. Se e quando eles forem confirmados, eu venho aqui contar.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

A USP precisa mudar. E com urgência




Algumas décadas atrás, a USP não era separada do resto da cidade. Não havia muros. Os domingos eram cheios de famílias que vinham aproveitar o dia. As pessoas assistiam a shows, se divertiam. Enfim, a USP cumpria seu papel de universidade pública, servindo a  população.
Durante a ditadura, a PM reprimia os movimentos políticos que aconteciam dentro do campus. Posto isso, vamos tentar entender o que está acontecendo:

A USP tem a chamada autonomia universitária. A grosso modo, isso quer dizer que ela mesma cuida dela e resolve seus próprios problemas (financeiros, de segurança, etc).  Por isso temos a Guarda Universitária, que faz o policiamento interno do campus. A autonomia é um dos argumentos para a PM não entrar aqui, e é válido. O problema é que a GU tem função patrimonial. Isto é, a prioridade é zelar pelos bancos e caixas eletrônicos e não pelas pessoas. Mas enfim, se ela fosse bem preparada e com outra filosofia, a PM de fato não seria necessária.

Os que são contra a PM no campus argumentam que a USP não está acima da lei, e que se a PM existe em todos os lugares, por que não pode atuar na USP? É um argumento mais do que válido. O que acontece é que toda a USP foi projetada somente para uma parcela da população e não para toda a sociedade. Por exemplo: Temos muros que nos separam do resto da cidade, é necessário carteirinha de Comunidade USP para entrar no campus aos fins de semana, não há ônibus nos fins de semana. Os projetos de extensão (que visam retornar para a sociedade o que é produzido aqui dentro) não recebem incentivo, a comunidade do Jardim São Remo, que divide portão com a USP, é ameaçada constantemente de ter os portões fechados. Sabem como é, é pobre e reduto de bandidos e não pode se misturar com a  nata intelectual da USP (só para limpar os banheiros).  Nosso vestibular é extremamente seletivo e praticamente só seleciona quem teve dinheiro pra pagar uma boa escola a vida toda ou, no mínimo, um bom cursinho. Então já que a USP não pode ser um lugar diferente do resto do mundo, que se abram os portões, oras! Que a entrada ao campus seja livre, porque a universidade é um lugar como outro qualquer da cidade! Essa estrutura elitista da USP é um outro questionamento levantado pelos estudantes. Se é para entrar PM, que também entre a população. Mas quando a política da universidade é questionada, há repressão. A questão não é só a PM, o buraco é bem mais embaixo.

Mas ok, supondo que tudo isso mude (embora eu acredite que SE mudar vai levar no mínimo uns 20 anos), ainda é necessário questionar a estrutura da PM. Ela é uma polícia que recebe treinamento militar e que enxerga a população como adversária. E na USP, há um histórico de repressões policiais, e é talvez por isso que a ideia de PM no campus nos incomode tanto. Na USP, ela sempre serviu mais para reprimir os alunos politicamente do que para a verdadeira segurança. Por isso tem essa briga enorme. A USP é sim um espaço de questionamento das estruturas sociais, de desconstrução para a construção, e isso não é bem aceito por muitos setores, onde o Estado se inclui. E a PM é o seu braço armado. Mas não, nós não somos melhores do que ninguém.

A comunidade uspiana é formada por quase 100 mil pessoas, salvo engano. Aqui é possível encontrar todo o tipo de opinião. Todo tipo MESMO. O consenso é quase impossível. Mas se tem uma coisa que me atrevo a dizer que todos concordam é que que sim, a USP é um lugar violento e que precisa de mais segurança. A diferença é que não acreditamos (nisso já não quero dizer toda a comunidade) que a PM seja sinônimo de segurança. Entre todas as pessoas do meu círculo social, nenhuma se sente mais segura porque a PM está circulando no campus. E eu lhes asseguro: não me faltam exemplos de repressão desde que a polícia entrou aqui (depois da morte do estudante da FEA em maio) para eu contar.
Então sim, queremos segurança, mas ela não necessariamente vem da PM. Ela começa com uma Guarda Universitária realmente bem estruturada, com um campus mais iluminado e com maior circulação de pessoas, e não só a "nata intelectual" brasileira. E, por que não com uma PM preparada e que não reprima a população, mas que dê segurança? Mas até aí temos um longo caminho.

Sobre o conflito atual em específico: os ânimos aqui são esquentados entre estudantes e PM por causa desses inúmeros casos de repressão. Pois bem, a PM flagrou 3 estudantes fumando maconha na FFLCH. Segundo a nossa lei, a punição para o usuário não é cadeia. Até onde eu sei, os outros alunos viram os 3 sendo presos e, desconfiados das ações da PM,  tentaram impedir a prisão. Então a PM chamou reforços para conter um pequeno grupo de estudantes. Os estudantes viam mais PM e chamavam os seus “reforços”. A PM via mais estudantes e chamava mais PM. E nessa bola de neve, a confusão começou. Os 3 alunos flagrados inicialmente já foram liberados, não deu nada errado com eles, mas a questão ficou muito maior. Desde aquela quinta-feira, os estudantes passaram a discutir a presença da PM no campus, e não a maconha, como a mídia faz questão de mostrar (mentindo).
Sim, alguns grupos fazem politicagem e não estão pensando na universidade, mas no benefício próprio. Sim, algumas pessoas exibiram baseados e tentaram expôr a questão da descriminalização da maconha, o que só ajudou na imagem que a mídia construiu. Mas a questão é e sempre foi uma discussão estrutural da universidade, e não do uso de maconha. Também tem gente que é super a favor da PM no campus. E eles têm esse direito, porque querem segurança e entendem que PM é sinônimo de segurança. Eu e muita gente discordamos pelos motivos já citados. Mas o fato é: nós, da USP, queremos segurança. E o direito de questionar. Lutar não é crime, embora queiram fazer parecer que é.

A ocupação é acusada com justiça de ser anti-democrática, pois passou por cima de uma decisão contrária vinda dos próprios estudantes. Mas isso não justifica a repressão policial sofrida. Foram cerca de 400 policiais (que incluem tropa de choque e helicópteros) para retirar os 70 alunos da reitoria. E prendê-los, obrigando-os a assinar um documento em que assumiam desobediência civil. Porque questionar a estrutura da Universidade agora é desobediência civil.

Nunca foi sobre maconha.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Uma história por trás dos números

Importante: Este post já havia sido postado anteriormente, mas o Blogger teve uma pane e o post original e os comentários deixados foram deletados. Aqui está uma cópia quase 100% fiel do primeiro texto. Peço desculpas a quem comentou e a quem visitou o blog e não encontrou o texto. Fiquei irritada com a situação, mas a história de D. Maria merece ser divulgada.

 D. Maria e seu instrumento de trabalho: ela não é a única

A USP é vista por mim e por outros tantos milhares como o lugar de estudo, de diversão, de fazer amigos. Amo aquele ambiente por vários motivos, e um deles com certeza é o clima estudantil e o enorme número de pessoas que pensam igual a mim. Mas junto com os estudantes de classe média e alta transitam pessoas que estabelecem um outro tipo de relação com o lugar: uma relação de sobrevivência.
Na região do bandejão (restaurante universitário) da Química, há vários vendedores de doces. são pessoas que literalmente passam na frente de nossos narizes todos os dias, mas que apesar da proximidade, estão muito distantes de pessoas como eu. Passei um bom tempo encarando essa relação como normal, até que um dia caiu a ficha que todos aqueles vendedores são trabalhadores informais, sem nenhuma ou quase nenhuma garantia de sobrevivência mínima e que dependem daquilo para viver.
Uma dessas vendedoras me chamou a atenção. A primeira vez que comprei doces com ela me levou a cair no choro (depois que eu saí de lá). Não dava pra ficar mais claro que aquela mulher vivia de um jeito tão e tão simples que eu só conseguia imaginar, e mesmo assim me tratou com uma simpatia absurda. Abençoou a mim e a toda a minha família por um tempo, pelo simples fato de eu ter comprado um bombom dela. Parece banal para a gente, mas aquele bombom, aquele dinheiro de troco de xerox que os estudantes gastam com eles, faz a diferença entre o comerciante ter ou não comida na mesa. Saí de lá refletindo e com uma vontade imensa de saber mais sobre a vida daquela senhora, até que um dia tomei coragem.

A D. Maria tem 55 anos e vende doces lá na Química há três. Antes, ela conciliava esse emprego com o de catadora de latinhas, lá na universidade mesmo. Ela parou porque não aguentava mais. Catar latinha cansa, é um sobe-abaixa danado, mas era o que garantia uma vida menos pior para ela: agora ela depende somente da venda dos seus doces para o sustento próprio e do neto de 10 anos que mora com ela.
D. Maria mora no Jardim São Remo, num barraco alugado de 2 cômodos. É na própria comunidade que ela compra os doces que vende (pausa na história: Já escrevi um outro texto sobre um caso no mesmo São Remo que me tocou. É incrível como apesar de colado à USP, esse lugar é distante da nossa realidade e sempre me faz refletir sobre esse mundo injusto). Fora o aluguel, tem que pagar luz e água pra poder morar. E tem que comer também. 
Como D. Maria não tem renda fixa, tem meses que ela come bem, tem mês que tem que comer pior, nas palavras da própria, que disse ainda que esse mês de maio tá fraco. Ela fica lá na Química só durante o horário de funcionamento do bandejão (das 11h às 14h). Depois vai vender no Hospital Universitário e quando dá umas 17h vai pra casa. Nos meses de férias tem menos movimento, então ela se aventura em outros lugares da USP. E é assim que a senhora faz pra viver. Mas dá pra viver? Tem mês que não, e quando não dá pra pagar tudo as amigas Marlene (que tem um trailer na Psicologia) e Sandra (que vende bijouteria) a ajudam.
A D. Maria não é de São Paulo. Veio de Recife há 13 anos  junt ocom três filhos e deixando duas lá. Às lágrimas, ela conta que saiu da cidade porque seu filho foi assassinado, e diz que não tem a menor vontade de voltar pra lá por causa disso. Seu marido, também falecido, morreu sem saber da morte do filho. Não contavam com medo de que ele adoecesse. Ele morreu de derrame, e após sua morte descobriram que ele era casado no civil com outra mulher, o que não permitia que D. Maria recebesse pensão pela morte do companheiro. Foi, sem dúvida, um baque. O "velho" trabalhava e ajudava nas contas.
Mesmo em Recife, D. Maria nunca trabalhou com carteira assinada. Lá ela lavava roupa para os outros e em São Paulo também participa do comércio informal. O neto que mora com ela estuda, mas ajuda a catar latinha quando dá, até porque elas são uma fonte preciosa de renda para os dois. Segundo ela, dava pra tirar uns 180 reais a cada 15 dias com a venda de latinhas. Mais de 200 se tivesse festa "boa" na faculdade. E não é só o dinheiro que faz uma falta danada não: Dona Maria sente muitas saudades de catar latinhas em festa, por que lá ela todo mundo conversava com ela e ela até dançava.
A D. Maria recebia Bolsa Família por causa do neto, mas tiraram dela sem dar uma explicação convincente. Ela correu atrás pra tentar garantir aquele dinheirinho que ajudava nas contas de volta, mas não conseguiu.
Apesar de viver nesse perrengue todo, a D. Maria adora trabalhar por lá, onde todo mundo a conhece e ninguém falta com respeito (na semana santa ela ganha até ovo de páscoa!). O problema é que o dinheiro não é muito, não.

Quando terminei de falar com ela, ganhei um abraço e um beijo muito afetuosos. D. Maria novamente abençoou a mim e a minha família e me ofereceu seus docinhos, que são sua única fonte de renda. Naquele gesto, vi como a gente, que tem tudo, tem a capacidade de ser mesquinho as vezes. Saí impressionada com aquela história e pensando nesse mundo e na injustiça dele.

São pessoas como D. Maria que não me deixam esquecer porque eu fiz jornalismo. E para quem eu quero trabalhar.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

A morte de Osama Bin Laden e o tiro que saiu pela culatra

 Osama e o Evil Bert. A montagem que percorreu o mundo

Depois de um bom tempo sem postar por aqui (desculpem-me os leitores), reeapareço para comentar o assunto do momento: a morte de Osama Bin Laden. Não apenas comentar, mas dizer qual a minha teoria sobre a mal contada história com base no que foi divulgado até agora. E não dá pra falar de tudo isso sem refletir sobre a própria guerra no Afeganistão, sobre o próprio país que anunciou a guerra.

Os fatos: 
- Osama Bin Laden era o número um da lista dos mais procurados pelo FBI. Após os ataques de 11 de setembro virou uma espécie de demônio, uma assombração que pairava sobre o povo norte-americano. 
- No dia 1° de maio o presidente Barack Obama anuncia que o líder da Al Qaeda foi morto no Paquistão em uma missão especial da inteligência.
- Um exame de DNA comprovou que o corpo era mesmo de Bin Laden.
- Nenhuma foto foi divulgada até agora com medo de que ela despertasse ódio. E seu corpo foi jogado no mar para evitar que seu túmulo virasse lugar de culto por seus seguidores. 
- O presidente Barack Obama estava com a popularidade em baixa e tudo indica que esta foi catapultada pela divulgação da notícia. 

Embora a CIA prometa a divulgação da foto que comprovaria para o mundo que o terrorista está morto, 4 dias após a divulgação da notícia ainda não há nada além da palavra do governo dos EUA que embase isso. E este é o fato que me causa estranheza. Quando outros grandes inimigos do Estado norte-americano foram mortos, não se hesitou em divulgar para o mundo que a America ganhou mais uma batalha. Há exemplos mais fortes do que Che Guevara e Saddam Hussein? (esse últmo tem até vídeo)
Em uma sociedade que cultua a imagem, a não divulgação de uma foto desse teor não desce para mim. E esse pensamento me faz inclusive ter duas teorias, que podem ser da conspiração ou não. Por causa destes fatos, já imaginei que Bin Laden teria sido na verdade preso pelos EUA e que agora esteja sendo barbaramente torturado (afinal, quantos enganam por 10 anos o Estado com maior poderio militar do mundo?). Não desacredito totalmente, mas na minha cabeça o líder da Al Qaeda já estava morto há muito tempo.
Por que sustento esta teoria? Basicamente por acreditar na força da imagem na sociedade de hoje, e achar as desculpas para não divulgá-las muito fracas. Mas não somente por isto.
Não faltam exemplos na história de pessoas que preferiram se matar ou morrer por fogo amigo a ser pego pelo inimigo (afinal, quantas atrocidades podem ser cometidas pelo ódio? Mesmo que Osama tenha de fato morrido na operação, ela não foi totalmente legítima). Considerando a idade e as atividades do líder afegão acho plausível que ele já tivesse morrido e que a informação só tivesse chegado nos americanos agora. Não morrendo nas mãos deles, o corpo pode ter sido destruído ou escondido. 
Um motivo para a Al Qaeda esconder a morte pode ser o óbvio: Ele era o líder do movimento e perdê-lo, em tese, abala suas estruturas. Além disso, com os EUA levando os créditos pela morte há uma "justificativa" (entre aspas, por favor) para possíveis ataques a alvos ocidentais por parte do movimento. 
Não duvido que houve um ataque com vítimas na mansão em questão, apenas acho que o homem não era ele.
Também aceito comentários do tipo "Mano, você tá viajando!". Afinal, não passa de suposição.
Mas nada disso muda a segunda parte do post.

Nota: Não custa lembrar que meu raciocínio se baseia na não divulgação de fotos do corpo e as desculpas dadas para tal até a data de escrita deste post. Está sujeito a alterações.

Supondo que tudo o que o governo norte-americano divulgou seja verdade, ainda acho assustador que um governo que se diz democrático e que usa um discurso de que leva a democracia para o resto do mundo (discurso bem questionável esse, inclusive) fale com muita naturalidade a palavra "matar". E pior, em primeira pessoa: matamos.
Mais assustador é um governo que primeiro mata, depois captura e anuncia ao povo (e observem bem o pronunciamento de Barack Obama, ele usa essa ordem). E um povo que abraça essa idéia e comemora um assassinato. A que ponto chegamos?
Aliás, o comportamento dessas pessoas é até compreensível. Eles de fato perderam parentes ou conhecidos em ataques e consideram uma extrema barbaridade serem atacados (isso não se aplica, entretanto, quando eles atacam). E foram educados para isso. Foram educados para ter um certo tipo de pensamento, e dele é quase natural essa euforia pela morte de uma pessoa como Bin Laden. 
"Mas era um terrorista, um assassino!", dirão outros. Não discordo, mas a visão de mocinho e vilão depende muito do lado da história, não se esqueçam jamais disso. George W. Bush não foi nenhum santo, na minha opinião, e foi reeleito pelo mesmo povo que hoje comemora a morte de Bin Laden e venera Barack Obama.
É inegável que a Al Qaeda trouxe dor e sofrimento a muitos lares americanos, e os responsáveis têm que ser punidos. Mas quantas vidas afegãs, iraquianas e por todo o mundo foram tiradas por ações militares norte-americanas? E mesmo assim, eles são maracados como os heróis. 
Talvez ainda mais importante do que isto: é necessário lembrar que Osama Bin Laden e seus companheiros foram criações norte-americanas. Receberam treinamento de guerra financiado pelo governo ianque para afastar o "mal do comunismo". O problema é que o feitiço virou contra o feiticeiro e o soldado virou-se contra o império (e eu nem mencionei as relações comerciais da família Bin Laden com a família Bush. Ah, o vil metal...). E é inegável que a procura por sua pessoa foi usada por anos como desculpa para ações militares impensadas que mataram vidas inocentes a troco de nada.
Os EUA sofreram na mão de Osama Bin Laden sim, mas não adianta se colocarem como os mártires e pior, JUSTICEIROS, da história. De santos eles não têm quase nada.

Mais do Mesmo:

- Assista ao discurso do presidente Barack Obama sobre a morte de Bin Laden. Pretendo fazer uma análise mais profunda de seu discurso mais pra frente. Sintam-se à vontade para cobrar:

- Álbum do UOL com a notícia pelo mundo:
Destaque para as fotos 4, 5 e 66. Ódio puro. É muito fácil contestar o ódio entre israelenses e palestinos, por exemplo. e não perceber os cravados dentro de nós mesmos.

- Charges do genial Carlos Latuff sobre o tema

terça-feira, 1 de março de 2011

Mesmice, machismo e cerveja.



Pra esse post se fazer entender, devo começar falando um pouco da minha infância e adolescência (se é que eu saí dela...). Como muitos da época, fui fã da dupla Sandy e Junior. De ir em vários shows, gravar programas, colecionar recortes de revistas e etc. São doces lembranças que me acompanham e que me ajudaram a ser quem eu sou hoje - mas espero que eu ainda me transforme muito. Fui 'largando o osso' aos poucos e só percebi um bom tempo depois. Hoje ainda ouço as músicas que gosto e tenho um carinho grande por fazerem parte do meu passado. Da época de fã trago muitos amigos (ainda fãs), o que faz com que eu saiba da vida dos dois mesmo sem querer. E hoje, no twitter, fui lendo boatos de que a Sandy seria a nova garota-propaganda da cerveja Devassa, o que acabou se confirmando. 
O post de hoje é sobre sexismo nas propagandas de cerveja. Veja bem, nada tem a ver com a Sandy, mas não nego que meu envolvimento sentimental (mesmo que antigo) foi o 'muso inspirador' para esse post. E é por isso que a foto que ilustra o post é dela. 

Nos últimos tempos tenho me envolvido muito com questões de gênero, e tenho a sorte de estudar em um lugar que questiona e pensa diferente. Na faculdade, há núcleos de estudo sobre o assunto e muito se discute sobre, de forma que os comerciais de cerveja são muito explorados por serem exemplos visíveis de preconceito com as mulheres e homofobia, por exemplo. Ao ver que a Sandy seria a nova "loira Devassa" fiquei na expectativa: Será que vai ser o mesmo de sempre? Logo depois li que ela apareceria dançando "Conga la conga" e fazendo um striptease (informações não confirmadas). Eis que vem a decepção: Sim, a mesma coisa. Comercial de cerveja parece que nunca muda (para não dizer que não há exceções, a última propaganda da Nova Schin, com a Ivete Sangalo, não soou apelativa para mim).
Acho triste que comerciais de cerveja sejam sempre assim: Machistas, falando sempre pelos homens, objetificando as mulheres, tratando-as como um pedaço de carne que só dá problema. Eles dizem muito sobre como pensa uma sociedade. E quão triste é para nós saber que na nossa é isso que faz sucesso.
Não sou publicitária e pouco ou nada entendo do assunto, mas penso que direitos fundamentais do ser humano não podem ser violados por causa do mercado. É importante vender, e apelar para mulher gostosa, futebol e cerveja vende. Mas essa é a única solução? Tenho certeza que não, acredito piamente que é possível vender sem apelar, que há criatividade o suficiente por aí para bolar propagandas geniais que não ofendam ou oprimam nenhum grupo social. É inadmissível, para mim, não pensar nos valores que você (publicitário e/ou empresa) difunde, já que cerveja é uma "paixão nacional", movimenta milhões e influencia outros milhões. Esses comerciais são assistidos por milhões, que mesmo inconscientemente adotam aqueles valores. Quem produz propagandas do tipo é responsável por um grande problema da sociedade.
Não acho que esses comerciais irão mudar tão cedo, principalmente porque poucos os questionam e porque eles continuam sendo lucrativos. Mas venho aqui mostrar minha indignação e deixar claro que há gente de olho. 
Aos que dizem que não adianta em nada reclamar e que não adianta pensar que vai mudar o mundo, não sei o que desejo. Fico indignada com falas como essa, que demonstram uma passividade assustadora, uma aceitação de absolutamente qualquer coisa que surja, sem qualquer senso crítico. Mas ao mesmo tempo sinto um pouco de dó (sentimento desprezível esse) e compreensão, porque ninguém nasce pensando assim, todo mundo é educado a pensar assim. Enfim, a esses digo apenas que não sou um robô e que questiono o mundo ao meu redor, e é assim que a história é construída. Se ofendi o ídolo de alguém não foi a intenção, gostaria apenas que  observem criticamente o que lhes é oferecido. Podem amar ver a Sandy numa propaganda de cerveja e ter muito assunto com os amigos, até porque é divertido mesmo, mas questionem e não deixem o fato de ser fã tapar os olhos para alguns aspectos. Isso vale para fãs de qualquer artistas em qualquer situação.

Coloco aqui três exemplos de comerciais de cerveja que, ao meu ver, ilustram bem o meu pensamento e representam bem o gênero:

Falando em Devassa... Esse comercial foi banido e ficou disponível apenas na internet. Espero que não seja necessário explicar o porque, mas aqui tem um texto muito bom sobre ele, que qustiona inclusive o próprio nome e rótulo da cerveja. Vale a pena a leitura.

Esse é sensacional! Olhem os exemplos: Cerveja, futebol, carro e mulher. Estereótipos, pra quê te quero... E a "Carlinha", hein?! Com muita roupa, pra realçar a intelectualidade. Não o corpo. O corpo, nunca.

MEU PREFERIDO! Os amigos felicitam o Marcão por ser "machão" e ter agido com firmeza com a mulher. Sabe como é né, elas merecem. E então, a cereja do bolo: As mulheres estão muito felizes. Por quê? Por que fizeram compras! E a mulher do Marcão, parasita que é, usou o cartão do Marido, para a despesa ir pra ele. E as amigas aplaudem, lógico. Afinal, as mulheres são assim, é só dar um cartão e ter uma liquidação que você as deixa na mão, fácil de entender. E o narrador mui amigo, finaliza com um alerta: "Domigão tem jogão, cuidado com o cartão". Obrigada, narrador.

Espero que os vídeos tenham sido elucidativos e tenham complementado meu raciocínio. E reitero o que disse: acredito verdadeiramente que é possível fazer publicidade de cerveja sem ofender mulheres ou gays, outro alvo fácil da mídia machista. Caso isso se mostre realmente inviável - mas lembremos, para saber que uma coisa é inviável é necessário que se tente realizá-la - tudo que nos resta é chorar. Porque nossa sociedade estaria realmente no fundo do poço.
Quanto a Sandy? Um brinde.

Mais Do Mesmo

Blog Viva Mulher, com reflexões interessantes sobre questões de gênero 


Quer denunciar programas abusivos mas não sabe como? 
 use o site Ética na TV (você pode visualizar várias denúncias nesse link )


ATUALIZAÇÃO
No fim das contas, a Sandy não dança Conga la Conga no comercial (que pode ser visto aqui ), mas isso não muda a essência do post, por isso coloco essa observação apenas no fim. Não achei o comercial tão apelativo quanto achei que seria, mas pra mim ele ainda se enquadra nesse padrão sexista.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

"Inveja e pena de quem mora por lá"


Partindo do princípio que a maioria dos meus leitores mora em São Paulo, esse post não será exatamente popular. Desde o aniversário da cidade, no dia 25 de janeiro, tenho pensado muito sobre ela. Vim do interior e daqui uns dias completo um ano morando na selva de pedra. Vim por força maior e empolgada. Já amei, já odiei e hoje acho que sinto. Sinto São Paulo. E preciso falar sobre isso.
Que é uma cidade apaixonante, não há dúvida. São Paulo seduz com suas possibilidades de tudo em qualquer lugar com qualquer tipo de pessoa. Tem uma diversidade maravilhosa e coisas que eu arrisco, só são vistas por aqui. São Paulo é um prato cheio para os olhos e para o coração. Mas não para a cabeça.
Ao mesmo tempo, São Paulo me entristece muito. Uma cidade com um crescimento desordenado, com falhas proporcionais à sua importância e que precisa urgentemente redefinir as políticas públicas prioritárias. Uma cidade que desrespeita o paulistano diariamente.
Viver em São Paulo não é fácil. Levar 2, 3 horas para chegar a um lugar e pagar uma fortuna num transporte público de péssima qualidade. A alternativa? um táxi caríssimo (e que recentemente aumentou 18%), que uma ínfima parte da população pode pagar. Fora que quem pode manter um carro na capital também pega congestionamentos quilométricos. E ainda reclamam que paulistano é estressado...
No meu jeito de ver as coisas, todos esses problemas urbanos entristeceram não só a cidade, mas o seu cidadão. Em um lugar onde vivem mais de dez milhões de pessoas, pouquíssimos (mesmo) se importam com o outro passando do outro lado da rua. Os habitantes de São Paulo, não por sua culpa, aprenderam a não olhar para o lado, a não enxergar o ser humano que está ali, tão estressado quanto ele.
Vejo no transporte público a síntese da cidade. Nada define mais a vida em São Paulo do que um metrô as seis da tarde. São milhares, milhões de almas com olhares vagos, perdidos, semblantes cansados que só querem chegar em casa. Ao redor do trem: paredes. Pouco ou nada se vê do céu e da cidade. E mesmo essas paredes, como se não bastasse, são cinzas como o humor de um paulistano àquela hora. Repito: São Paulo maltrata seus habitantes. E para conseguir uma recompensa, um sonhado momento de lazer, quem sabe quantas horas você vai demorar pra chegar?
Quando por aqui cheguei, senti sim olhares atravessados por causa do sotaque e, em alguns momentos, aquele feeling de "caipira, não sabe nada". Ainda bem que isso vem de uma minoria. Mas vem. Adjetivando, eu acho muitos paulistanos estressados, mal-educados e com um enorme rei na barriga (perdendo leitores em 3,2,1...). Claro que isso não se aplica a todos e mesmo os que eu vejo dessa forma eu sinceramente não os culpo. Sinto repulsa, mas não culpo.
No dia do aniversário da cidade, uma amiga de outro lugar escreveu: "Parabéns São Paulo, eu sinto inveja e pena de quem mora lá". Não consegui encontrar nada que definisse melhor o que eu sinto por essa cidade. Antes eu queria muito "virar paulistana". Em alguns aspectos, acho que virei. Outros ainda não, mas também não sei se quero virar. Prefiro sinceramente ainda reconhecer os rostos tristes do metrô do que virar um deles.
E paulistanos, sintam-se no direito de não concordar com nada desse texto. Afinal, são as impressões de quem nunca vai ter o privilégio (?) de nascer, viver e morrer em São Paulo. Mas que nem por isso deixa de falar.

PS: Como no último post eu usei a imagem de um menino para exemplificar meu pensamento, dei a ele o direito de resposta. Até agora ele apenas recomendou um documentário. Reproduzirei o que ele disse:
Por enquanto veja os primeiros 3:55 de  e PRINCIPALMENTE os primeiros 4:30 de  . É um doc. bem interessante, vc poderia ve-lo todo pra me comentar depois, ae me diz se eu estou sendo machista ou realista...

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

O caso Marcela Temer e o machismo

Os Amantes, de Renée Magritte

Continuando uma série sobre preconceito aqui no blog, destaco hoje alguns aspectos do machismo. Eu, como mulher, sinto o preconceito todos os dias. Seja com uma cantada na rua ou com uma piada no estilo "mulher no volante perigo constante". E naturalmente venho me interessando pela causa nos últimos tempos.
A história do machismo e as diversas formas de submissão da mulher se confundem com a história do ser humano. São problemas muito antigos e enraizados em nossa sociedade. Muitas vezes fazemos comentários extremamente machistas e nem percebemos, tamanho o "senso comum". O assunto envolve tabus sexuais e estes são, talvez, os mais delicados de se discutir em uma sociedade.

"É piranha, não vale nada", "essa aí só quer saber do dinheiro dele", "mulher jogando futebol, onde já se viu?", "ai, mulher baterista é tão esquisito", "ai, olha que mulher musculosa, que coisa horrível", "mulher tem que ser feminina".
Não tenho dúvidas que você já ouviu vários ou todos os comentários acima em algum momento. Embora alguns não pareçam, são símbolos da cultura de desvalorização à mulher. E muitos deles são proferidos pelas próprias mulheres. Por que gostam de sofrer? Por que se odeiam? Ao menos não conscientemente. Mas como faço questão de insistir, o machismo é tão antigo e tão enraizado em nós, que não nos damos conta das bestialidades que rolam por aí. As leis e os valores das sociedades foram moldadas, historicamente, pelos homens. E isso explica a naturalidade com que tais valores se fixaram nas culturas.
A verdade é que ainda restam muitos tabus, de todas as ordens, para serem quebrados. E no que diz respeito a gênero somos muito mais conservadores do que pensamos ser. Embora nos declaremos sem preconceito, nos momentos em que a diferença se manifesta, mostramos todas as nossas garras e não hesitamos em reprimir e 'mostrar quem manda". (Ler "A Surdina", deste mesmo blog)

Na posse da presidenta Dilma Roussef, a mulher do vice-presidente Michel Temer, Marcela Temer, roubou a cena. Pelo simples fato de ser uma mulher jovem e bonita e casada com um homem 42 anos mais velho que ela. Ao mesmo tempo em que se celebrava uma conquista das mulheres com Dilma Roussef, ouviam-se de todos os lugares os comentários afirmando que Marcela só está com Temer por interesse.
Saio aqui em sua defesa pois creio que nenhum ser humano merece ser julgado previamente. Dos brasileiros que julgavam Marcela, quantos já ouviram sua voz? Mas nesta sociedade louca, você tem todo o direito de julgar o caráter de uma pessoa e difamá-la sem motivos. Se é mulher bonita casada com um homem mais velho então, é um prato cheio. 
O que mais me irrita é a certeza com que afirmam as más intenções de uma pessoa que nem conhecem. E não se esqueçam, é normal das mulheres casarem por interesse e serem parasitas dos maridos. Ah, essas mulheres...
Como eu disse, muitos comentam na maior naturalidade.. Os políticos, a mídia, os juízes, todos difundem valores machistas (reconheço as exceções, mas me refiro à regra). O que resta à população a não ser incorporá-los?

Me expresso muito pelo twitter, e lá expressei em bem menos caracteres a minha indignação, ao que fui respondida por um destes que acreditam ser Marcela Temer uma golpista (aliás, lembremos que Marcela Temer está desde ontem nos Trending Topics. foi um prato cheio). Reproduzo aqui as mensagens direcionadas a mim por julgá-las altamente ilustrativas do pensamento machista.


Eu questiono: "O que faz você ter tanta certeza do interesse? O fato dela ser jovem e bonita?"

Tecla SAP: Seu amor só será legítimo e bem visto aos olhos de uma sociedade se não houver diferença de idade, se for uma relação HETEROsexual e se os dois parceiros forem feios. Ou os dois bonitos. Misturar jamais, nem pense nisso. Como manda a moral e os bons costumes.

Nota-se que a opinião e os valores de UM são aplicados na sociedade inteira, doa a quem doer. 
Eu novamente questiono: "Eu não acho nada. Só sei que não posso tirar conclusões sem conhecer"

Nisso, meu espírito jornalista se ofendeu. Afinal, somente casos intensamente explorados pela mídia foram citados. E já que ele gosta tanto destes casos e acredita no que dizem, toco no caso Escola Base: "E você viu os donos da Escola Base estuprarem os alunos?"

E eis que o próprio cai em contradição. "Nem tudo é o que parece". Pois é. Então pra que julgar tanto né?!

O que quero explicitar aqui é que não coloco Marcela Temer como heroína da situação. Não a conheço. E do mesmo jeito que não a exalto, defendo seu direito de não ser difamada por quem, assim como eu, não a conhecia até dia 1/01. 
É bonito dizer que o amor vence tudo, que é a coisa mais importante em nossas vidas. Então por que impedir diversos grupos da sociedade de viver isso? Para mim, o nome disso é hipocrisia. Defendo aqui o não-julgamento de uma mulher que é impedida de amar por uma sociedade. Se ela ama o marido quem sou eu pra dizer? Se não ama, quem são para dizer? Prefiro acreditar na inocência, até que se prove o contrário. 

Mais Do Mesmo

Marcelo Tas (+1.100.000 seguidores) e Danilo Gentili (+1.300.000 seguidores) sobre as mulheres na posse.

Cartilha com comentários dos homens sobre o femininismo http://i56.tinypic.com/2qdzgue.jpg


PS: Esse foi o primeiro post do ano. Desejo a todos um ótimo 2011 e que seja um ano de significativos avanços sociais em todo o mundo, que eu tenha bem menos assuntos para me indignar neste blog.
PS²: Coloquei o perfil de quem 'discutiu' comigo no twitter. Não para exibí-lo (embora eu ache que mereça), mas porque são tweets públicos e estão disponíveis para qualquer um, assim como os meus.
PS³: Confesso que prefiro esteticamente o termo "presidente". Mas acho a designação de gênero fundamental, visto que é necessário valorizar a conquista feminina na política brasileira. Portanto, a não ser que minha memória me traia, somente usarei o termo "presidenta".