segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Pelos pêlos

Essa foto é das minhas pernas.

Não deixei os pelos da minha perna crescerem propositalmente, pra provar um ponto feminista ou algo do tipo. Eles simplesmente cresceram porque é isso que eles fazem, e eu estou cansada de saber que ter pelo é mais do que ok, é tão válido quanto não ter. Eu também prometi pra mim mesma nunca ser escrava de depilação. Então se eu não achava tempo pra tirar meus pelos, eles ficavam aí. Até que eu dia eu olhei e achei que na verdade eles estavam bonitos grandes e adiei um pouco mais pra tirá-los. Só que acabei tirando, porque ter pelo grande é muito complicado: te impede de usar shorts e coisas do tipo, porque os olhares são apenas insuportáveis. Desde então deixei crescer de novo até ficar desse jeito aí.

Sou mulher e sou feminista. Sou uma pessoa que nunca entendeu direito as regras de feminilidade. Essas regras que não estão escritas em lugar nenhum, mas que estão escritas em todo lugar. O feminismo foi um caminho natural pra eu entender que essas regras não têm que ser meu norte e que eu posso trilhar meu próprio caminho. Mas isso não é fácil, ou eu nem estaria escrevendo isso. O feminismo nunca me disse que seria fácil, mas bastou eu dar um passo um pouco maior fora da curva pra sentir a pressão.

Ao contrário do que eu acabei de falar, ter pelo não me impede de usar shorts, não. O que me impede é outra coisa. Mesmo meus amigos mais 'modernos' que a média não conseguem evitar o espanto quando olham pros meus pelos ou mesmo quando eu conto que os tenho. Não é de propósito e nem acho que a culpa disso é deles, mas não deixa de ser um verdadeiro pé no saco, porque você acaba parando de usar shorts ou mostrar suas pernas simplesmente pra evitar a fadiga.

Nunca vão te chamar de nojenta, isso não. Mesmo que achem os pelos a coisa mais nojenta do mundo, nunca vão te chamar disso. Mas se você aparecer com as pernas lisíssimas, vão falar que sua perna é/está linda. É assim que funciona. E eu sei que é assim que funciona porque eu sinto isso na pele desde que me entendo por gente (nesse ponto não me refiro só à depilação). E é assim que você sabe que as pessoas não gostam e não conseguem acostumar com pernas peludas. É mais pelo silêncio.

As pessoas podem não achar que eu sou menos mulher que outras mulheres, mas me olham diferente, sim. Sinceramente eu nem acho que é consciente. Eu acho que boa parte delas sabe que você tem o direito, mas continua olhando estranho. Ou fica tudo no manto do "ah, eu simplesmente não gosto". Não questiono que têm pessoas que não gostam, mas acho que quando a esmagadora maioria das pessoas não gosta, tem um porquê pra elas não gostarem. Será que "naturalmente" (ah, que horror que tenho dessa palavra) quase todo mundo tem medo de pelo mesmo ou a gente foi ensinado a achá-los nojentos, especialmente nas mulheres? A segunda hipótese me parece bem mais plausível.

Só pessoas muito próximas falariam na cara dura que é nojento, que eu tenho que depilar. Aí dá uma raiva indescrítivel por causa da cagação de regra pra cima de você e do seu corpo. E não adianta argumentar. Tudo que eu tentei foi em vão, porque não consegui fazer ninguém entender que a necessidade de depilar é imposta socialmente. Que isso pode não ser nojento, repugnante. E, como é muito frequente quando a gente fala em regras para o corpo da mulher, sempre tem as pseudojustificativas de porque deveria ser daquele jeito.

Ouvi, por exemplo, um "mas nesse calor!". Sinto desapontar a todos, mas NÃO FAZ A MENOR DIFERENÇA. Estou com esses pelos compridos há bastante tempo, sou calorenta, suo muito mais do que 90% das pessoas e pasmem: os pelos na perna não fazem a menor diferença! Se tem uma coisa que eu posso dizer é que esse argumento é um dos mais descabidos que eu já ouvi. Para não dizer que não fazem diferença nenhuma, como a gente deixa de usar shorts e coisas do tipo, você acaba passando mais calor, sim. Mas nunca por causa dos pelos em si.

E sim, eu sei que eu deveria tacar um foda-se e simplesmente usar os shorts. Simplesmente não ligar. Mas acontece que todo mundo liga, eu não conheço ninguém que não liga. Eu e toda minha parte racional sabemos que não tem problema nenhum e que quem perde sou só eu, mas é diferente de ser alvo de olhares - ou do silêncio. Eu estou para tirar esses pelos mesmo, nunca de fato desejei as pernas peludas, mas aconteceu. Já era pra eu ter tirado há muito tempo, na verdade adiava pra tirar toda vez que eu via um olhar aravessado. Estranhamente, isso me deixou com vontade de deixá-los. De todo modo, só me confirma como uma mulher ter pelos é um ato de resistência e dos grandes. O que é ridículo, deveria ser simplesmente uma questão de escolha e ninguém tem nada a ver com isso. Mas na prática não é assim que funciona, infelizmente. Tanto que eu, mesmo sabendo disso tudo, vou tirá-los.

E vejam bem, estou falando só dos pelos das pernas. Se falarmos de outros, especialmente os íntimos, a discussão se alongaria muito mais. E eu não faria um post ilustrado, hehe.

Pra finalizar, esse tumblr lindo e essa música maravilhosa da sempre maravilhosa (e peluda) Amanda Palmer.

quinta-feira, 14 de março de 2013

O que o Kinder Ovo tem a ver com Marco Feliciano?

 
 Produto inofensivo?

Embora já acontecesse há um tempo, essa semana as redes sociais descobriram a nova estratégia do chocolate Kinder Ovo: fazer surpresas para meninos e para meninas, para pegar brinquedos correspondentes ao seu sexo. Só que ao invés de revoltar os internautas de plantão, tudo foi levado como uma grande piada e motivo de gozações com quem achava aquilo um absurdo. Ao mesmo tempo, um número realmente representativo de pessoas passaram a semana protestando contra a nomeação do pastor e deputado Marco Feliciano, do PSC, para a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM).

Marco Feliciano é assumidamente racista e homofóbico. Um anti-direitos humanos e minorias. Pipocaram e pipocam manifestações em todo país pedindo sua saída, o abaixo-assinado virtual tem quase 500mil assinaturas. Todo mundo consegue reconhecer o absurdo na sua fala. Todo mundo se pergunta como foi que a gente deixou isso acontecer. Sim, houve má-fé de vários partidos, falta de ética e preocupação zero com os grupos marginalizados. Mas, se me permitem levar a situação ao extremo, a gente deixou isso acontecer quando fez piada da separação do Kinder Ovo.

Por quê? Porque tem muita gente, por diversas razões que não vêm ao caso, que só entende o absurdo quando ele é levado ao extremo. É muito fácil ver que Marco Feliciano é preconceituoso e um mal a ser combatido. Ele é incoerente, inflamado, não pensa para falar, falta inteligência. Isso não quer dizer que é fácil tirá-lo do poder, ou as diversas manifestações já teriam surtido efeito. Isso é apenas uma constatação que é fácil perceber a ignorância do pastor.

Mas e o sexismo do Kinder Ovo, cazzo? Bom, como eu já pincelei em outro post deste mesmo blog, o machismo pode ser muito sutil. Pouquíssimos hoje em dia têm coragem de dizer que uma mulher não deveria trabalhar ou estudar, mas quantos não dizem que mulher tem que ser feminina? Que é melhor mesmo não usar uma roupa muito curta? Que ela "provocou"? Que é muito oferecida? Isso é tão machismo quanto, oras.

Preconceitos milenares não são combatidos de uma hora pra outra. Logo, permanecem conosco, de maneiras mais ou menos sutis. É o caso dos brinquedos  'de menina' e 'de menino', que podem parecer naturais mas não o são, em absoluto. Como o Kinder Ovo deixa claríssimo, é uma coisa alimentada por nós desde sempre. Ao comprarmos o Kinder Ovo Meninas para nossa sobrinha, dizemos que aquele brinquedo é adequado para ela. E não o carrinho que vai vir no dos meninos. Afinal está em uma categoria em que ela não se encaixa.

Essa estratégia de repente pode até ter sido bem intencionada, mas o efeito é cruel. Ele não é percebido imediatamente. As vezes ele não é nem percebido, mas ele existe. Tirar sarro de quem reclamou disso é desonesto, é dar força para um tipo de opressão muito forte e que arrisco dizer que todos nós já passamos (ainda não encontrei ninguém que não gostasse de pelo menos uma coisa 'naturalmente' destinada ao sexo oposto).

Eu realmente amo a internet, suas piadas e trocadilhos bestas, não me levem a mal. Também existiram piadas que tiraram sarro do Kinder Ovo, e não só as que eu me refiro no post (as que reclamam de terem reclamado, que acham exagero, etc). Não estou censurando, como adoram dizer nos tempos pós-modernos. Muitas pessoas que eu realmente admiro fizeram essa piada e elas continuam tendo o direito de fazer, mas eu preciso expressar o quanto essa piada me parece babaca e me dá raiva.


Toda vez que tiramos sarro do sexismo nós alimentamos o pensamento que sustenta Marco Feliciano. Ele é sustentado por sexistas, homofóbicos, racistas, classistas, todo tipo de gente odiosa e preconceituosa e que justifica seu discurso com a liberdade de expressão (não aceitando, no entanto, ser questionado). Os próprios Feliciano, Bolsonaro, Malafaia e afins tiram sarro das minorias, não sendo suficiente o discurso de ódio. E não é que uma parte da população (que, é importante dizer, também discorda do cara e o acha uma aberração) responde a isso? Tirando sarro dos grupos combativos. Óbvio que todos somos passíveis a críticas, mas desse jeito nós não vamos chegar em lugar nenhum.

A base de Marco Feliciano é gente intolerante. E por isso, repito:  Toda vez que tiramos sarro do sexismo nós alimentamos o pensamento que o sustenta.

sexta-feira, 8 de março de 2013

8 de março - Dia Internacional da Mulher

(Homenagem de Maurício de Sousa para o dia de hoje. Duas paixões condensadas em uma imagem)


Sou a única filha menina e tenho mais de 10 anos de diferença pros meus irmãos mais velhos.Conforme eu crescia, percebia várias coisas que me incomodavam e que só se aplicavam nas mulheres: o ciúme, a superproteção, ter que dar justificativa pro pai e pro irmão, não poder sonhar em falar de namorado para não dar arrepio nos homens da família, ter cuidado com a roupa que vai sair. As frases "assim você não vai arranjar namorado", "imagina quando você tiver filho" e "não adianta, é chato, mas a limpeza da casa recai sempre na mulher" fizeram parte do meu cotidiano, sendo ouvidas em vários lugares. Ainda hoje, nos almoços de família, somos nós, as mulheres, que limpamos a mesa e começamos a lavar a louça enquanto os homens ficam conversando e depois vão dormir. Tudo normal.

Eu sentia tudo isso na pele e ficava muito incomodada e brava, mas não via o que poderia ser feito. Depois tive o privilégio de entrar na USP e percebi que eu não era a única que sentia isso na pele. E o melhor de tudo: eu percebi que o que eu pensava tinha um nome, era feminismo. Que englobava o que eu pensava e desejava para a sociedade, abarcando todas e todos.

É inegável que em pouco tempo (no breve século XX) conseguimos nos libertar de amarras históricas. Muita coisa melhorou, sim, mas está longe de ser o ideal. Nós, mulheres, temos direito à voto, educação, trabalho e saúde. Mas os buracos entre a teoria e a realidade não podem ser medidos. A começar que esses direitos não são garantidos em todos os lugares do mundo. Me atendo apenas à realidade brasileira, ainda temos desafios enormes pela frente.

No que diz respeito à direitos políticos, nosso voto ainda não tem 100 anos e, embora nós mulheres sejamos metade da população do país, a porcentagem de mulheres no poder é muito inferior aos 50%. E o que elas ouvem dos marmanjos para chegar lá não é brincadeira.

Na educação, embora sejamos maioria, somos desde cedo segregadas. Quantas não ouvem que o ensino superior é apenas para 'realização pessoal', porque o marido é que vai sustentar a casa? Nosso acesso aos cursos também é desigual: somos tidas como inferiores em algumas áreas e sofremos preconceitos por entrar em áreas tradicionalmente masculinas, por praticar esportes 'masculinos'. Não recebemos uma educação voltada para a igualdade de gênero e diversidade sexual.

No trabalho, os problemas são ainda maiores. Não recebemos, na prática, a mesma remuneração que os homens pelos mesmos serviços (e isso se agrava quando pensamos especificamente nas mulheres negras), somos assediadas e muitas vezes forçadas a permanecer em silêncio, temos nossa capacidade colocada à prova por nossa aparência, temos o emprego ameaçado por querermos ser mães.

No que diz respeito à saúde não temos assegurado o nosso direito de uma gestação segura. Não temos sequer o direito de interromper uma gestação. Somos tratadas como reprodutoras, como pessoas capazes de gerar filhos para homens, e não como pessoas com vontades e que têm, sim, o direito de não quererem filho nenhum. Temos informações de contracepção negadas, não temos o direito de mandar em nosso corpo. E pior, temos ainda que seguir à risca um padrão de beleza inexistente e que só traz sofrimento. E cujo mantra certamente não é a saúde e o bem-estar das mulheres.

Fora isso, ainda somos brutalmente assediadas de todas as maneiras possíveis e em todos os lugares. Não andamos seguras, andamos com medo. Sofremos violência de nossos parceiros, somos brutalmente assassinadas e a culpa ainda recai sobre nós. Comprovamos todos os dias que muita gente ainda não entendeu o que as palavras “respeito” e “não” significam.

E os problemas estão longe de acabar: O machismo não aprisiona somente a mulher branca e heterossexual de classe média. Me ative a problemas das mulheres por causa da data, mas um homem sofrer preconceito por ser estudioso, não gostar de futebol, querer seguir uma profissão ‘feminina’, chorar e demonstrar sentimentos é tão ultrajante e inaceitável quanto.

Listando tudo o que tem que melhorar, sou tomada por uma desesperança enorme. Mas é aí que reside a importância do 8 de março. Ele me lembra que Nós Podemos! Que unid@s nós conseguimos mudar muita coisa, porque o machismo NÃO aprisiona só as mulheres, o machismo aprisiona todos nós.

Que a gente não se esqueça que tudo isso foi conquistado e que podemos conquistar ainda mais. Que não nos esqueçamos de quem já lutou para conquistar o que hoje temos como um direito inalienável.

Que não nos esqueçamos que homens, mulheres e homens transexuais, mulheres brancas, negras, índias e de quaisquer outras etnias também DEVEM estar contemplad@s. Que não nos esqueçamos que a luta abarca todos nós, do nascimento à velhice, sejamos hetero, bi, homossexuais ou de qualquer outra definição.

Nossa luta está mais sofisticada, temos muitas nuances e diversas demandas, o que enriquece as conquistas. Apenas que não nos esqueçamos da luta maior: a luta para que sejamos livres e tenhamos não o direito de estarmos aprisionados às mesmas regras, mas o direito de sermos todos livres e donos de nosso próprio destino.

Feliz dia da mulher.

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Para encerrar, deixo aqui a música "Rosie, The Riveter". Para quem não sabe, Rosie é a personagem inpiradora do famoso cartaz  norte-americano 'We can do it". A música não diz nada especifico do feminismo (para isso eu recomendaria "Pagu"), é apenas uma paixãozinha pessoal, mesmo.


sábado, 29 de dezembro de 2012

Porque sentirei saudades do Furo MTV com Dani Calabresa



Estudo jornalismo, fico indignada com a falta de ética da grande imprensa do Brasil e adoro humor. Aquele humor que respeita, que pode ser bobo, que toma partido. Por isso, quando descobri o Furo MTV fiquei completamente viciada e apaixonada.

Tenho fortes convicções que o Furo, embora em forma de telejornal, nunca pretendeu ser jornalístico, e sim humorístico. E mesmo assim fez jornalismo melhor que uma boa porcentagem dos veículos destinados a isso. O Furo foi mais honesto do que nossa imprensa. O Furo tomou partido, o Furo se posicionou politicamente. E não foi para o lado "mulher feia devia agradecer por ser estuprada". Foi para o lado "homofobia tem cura: ensino fundamental completo". Tirando sarro de tudo o que há de mais podre na nossa sociedade, o Furo fez rir por quatro anos. E vai continuar fazendo por pelo menos mais um.

Fora o lado nobre, ainda senti no Furo MTV "o programa da minha vida" porque as referências eram as mesmas que as minhas, o universo era o mesmo. Tirar sarro de globais, de reality shows, amar os vídeos mais sem noção da internet e usá-los como referência em uma conversa. Fora toda a exaltação às Spice Girls (não fale mal delas perto de mim). Apresentadora e roteirista colocavam no ar algo que poderia ter saído da minha boca. Não perdi um programa desde que percebi que ele era assim.

Dani Calabresa assinou contrato com a Band e deixa o Furo, que deve continuar com Bento Ribeiro e Luis Thunderbird. O Furo MTV merece vida longa e eu espero que continue por um bom tempo ainda. Pra mim, é o melhor programa da TV. Assistirei ao programa no próximo ano, na esperança de que continue tão maravilhoso. Mas embora goste de ambos os apresentadores e imagine que a ideia do programa permanecerá a mesma, devo dizer que sinto que muita coisa mudará. Repito: desejo que o Furo continue, mas para mim, sem a Dani Calabresa não é a mesma coisa. Assistirei com prazer, mas definitivamente não o mesmo de antes.

Estou inconsolável por motivos bem egoísta pela saída de Dani. Para mim, era o espírito do programa. E é minha humorista preferida, de longe. E eu sentia que ela acreditava em cada linha que pronunciava naquele programa, fosse o humor mais bestão desde os protestos em forma de humor feitos lá. Fora isso, tive uma identificaçaõ pessoal com a Dani: ela vem do interiro e ainda usa o sotaque dela como arma. Lendo entrevistas dela, percebi como gosto dela. Acho-a muito lúcida, muito consciente, muito correta no que faz. Me dói a alma saber que ela vai sair do Furo MTV para migrar para o CQC. Este, o pior e mais babaca programa da TV atualmente, na minha opinião. Por N motivos que não são o objetivo deste post.

Não sou capaz de desejar nada além do MUNDO para uma pessoa que me fez e faz rir tanto. Desejo à Dani toda a sorte do mundo na Band. Não escondo que desejo também que a passagem pelo CQC seja rápida e que o programa solo venha logo e que seja tão bom quanto o Furo MTV. E que, durante o CQC, ela eleve o nível do programa como só ela conseguiria. Estou triste triste triste, mas ainda é mais importante agradecer todas as vezes que uma lágrima caiu do meu olho de tanto dar risada ou de quando eu fiquei de boca aberta pensando "Meu Deus, que genial. Isso simplesmente não poderia ter sido escrito de um jeito melhor".

É bobo, mas o programa e a apresentadora representam mais para mim do que parece à primeira vista, estão guardados no meu coração. Representam tanto que este próprio texto era para ter sido apenas intridutório, e acabou ficando enorme.Não consegui expressar meu carinho em menos parágrafos.

Obrigada Furo MTV, obrigada Dani Calabresa.

Abaixo, uma seleção de alguns dos melhores momentos do Furo e da Dani, na minha opinião. Existem outros tão geniais quanto, mas ou não lembrei de primeira ou não achei um vídeo só com aquele momento. Enfim, vale assistir as 4 temporadas do programa. E é isso que fica.

Dia do orgulho Heterossexual


Banca Evangélica quer propor a cura gay


Top de 5 mensagens pelo dia nacional contra a homofobia


Top de 5 trechos da nova música de Valesca com MC Catra


Top 5 Hits de Valesca


Dani Calabresa Imita Nicole Bahls


Dani Calabresa imita suzana Vieira


I'm a Diva

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

(Ma) Donna

Foto: Francisco Cepedal

Ontem, dia 04/12, fui assistir ao show da Madonna no Morumbi. Senti tanta coisa ao longo das 8h que fiquei ali que achei necessário colocar tudo isso em um post. Tentar colocar em palavras o liquidifcador de sentimentos do dia.

O dia foi absolutamente errado. Tudo errado, tudo:

- Cheguei tarde, atrasei mais do que gostaria
- Tive que jogar fora minhas pilhas reservas, sendo que não tinha nenhum aviso de que não podia pilha reserva no show. Elas nem eram minhas, aliás.
- Fui revistada por uma policial extremamente estúpida. Aliás, essa passagem merece um post a parte, mas em resumo: que essa policial vá se foder.

- Quando consegui entrar, já não tinha lugares muito bons. Ficamos inicialmente mais ou menos na quarta fileira do setor (pista), na lateral. Apesar de perto da grade, meus 1,60m nao me permitiram ver absolutamente nada.

Quando começou a passagem de som percebi como não assitiria nada do show, tinham muitas cabeças na minha frente. A tristeza e a frustração foram se acumulando. Saímos de lá na esperança que atrás pudéssemos enxergar melhor, e isso já depois da passagem de som. Fomos mais para o meio do palco e a priori tinha melhorado mesmo (pelo menos tinha mais ar para respirar). Depois vi que troquei o 6 por meia dúzia e que o único jeito de assistir ao show seria crescendo 20cm ou tendo comprado pista premium ou arquibancada. Essa foi uma lição que ficou, aliás: pista nunca mais. Nos próximos ou fico em arquibancada, para ficar sentada e evitar a dor insuportável no pé (mas não sentir o show como eu gosto), ou fico na pista premium, desembolsando muito mais dinheiro do que eu posso.

Ainda em relação aos lugares, em todos os momentos me bateu o arrependimento por não ter comprado a pista premium, mesmo sabendo que a culpa não é minha e que não é normal uma meia entrada para um show custar mais de 500 reais (com as taxas obrigatórias). E que eu não posso pagar isso. Mas não conseguia parar de pensar nisso tamanha a minha frustração.

Meus pés refletiam todo meu cansaço, e mesmo sentar nao adiantou muito, porque ainda tínhamos que garantir um lugar minimamente aceitável. A cada hora era uma parte da perna que doía.

Depois de não aguentar mais esperar, ainda teve a pior parte: o atraso e o show de abertura. Marcado para às 20h, o show de abertura com o DJ Gui Boratto começou somente às 20h30, sendo os 90 minutos seguintes a experiência mais próxima da tortura que eu já vivi. Não, o DJ não é ruim, mas o repertório não refletiu em absolutamente nada o esperado pela plateia. Foi um show longo e extremamente tedioso. 90 minutos de "putz putz" sem letra, sendo uma completa quebra de expectativa. Não vi uma pessoa que estivesse gostando do show e o DJ foi vaiado. A plateia pedia desesperadamente para aquilo parar. E com razão. O pior de tudo é que eu não podia sentar ou seria pisoteada, já que a partir daquele momento o show poderia começar a qualquer momento.

Depois do que pareceu uma semana, o show de abertura acabou e ainda tivemos que esperar cerca de meia hora - já com os pés clamando por ajuda - para Madonna entrar no palco. Sorte minha que eu já tinha botado na cabeça que não ia voltar de transporte público, pois o show começou 22h20 e acabou 0h10.

Quando o show começou o show eu já não aguentava mais aquele dia. Estava super suada, dolorida, apertada, irritada e bloqueando gente querendo entrar na minha frente o tempo todo e tapar ainda mais a minha visão. Cogitei ir embora antes do show, mas nem falei nada para o meu bravo acompanhante em nome das muitas horas que havíamos aguentado.


Ufa, começou.
Minha visão  e a de todos ao lado restringia-se ao telão, e qual foi a minha surpresa quando, começando o show, uma menina subiu no ombro de um rapaz, tapando a visão de todo mundo?
Não gosto de brigas, ainda mais em estádio, mas torci para aquela menina apanhar, confesso. Muitos gritaram "desce, piranha", jogaram copos nela, empurraram ela para baixo. E mesmo assim ela ficou lá, fazendo questão de atrapalhar todo mundo. Nisso, já tinha ido a abertura, uma parte do show que eu acho mega emocionante e foda, e eu não consegui ver nada. Nem no palco nem no telão. Veio uma sensação tão ruim que derramei algumas lágrimas. Lágrimas de arrependimento, de ter gastado 200 reais para nada.

Garanto que chorar de raiva não é uma coisa comum no meu repertório. E mesmo assim eu chorei frustrada. Uma frustração acumulada já há 6 horas.

Acabei me recompondo logo. A menina foi atingida por um surto de bom senso. Tudo mudou.

Redenção
Acho que já por não ter mais expectativa nenhuma, parei de pensar e comecei a assistir o show sem pensar em muita coisa. O saldo do dia, que estava próximo do zero absoluto, foi lentamente subindo e culminou em um choro de alívio no fim. Mas vamos por partes:

Me entreguei às músicas, me entreguei a uma artista que não a toa é chamada de rainha do pop. Comecei a olhar aquele show e a me surpreender com ele. Apesar da minha visão limitada, eu conseguia sentir o espetáculo.

Madonna.

Não há uma única música no show que não seja muito bem executada. As projeções são incríveis e muito bem cuidadas. Todos os números cuidadosamente ensaiados que formam um espetáculo de encher os olhos. Nada ali era vazio, tudo, TUDO, tinha a cara da Madonna. Tudo tinha um conceito, tudo tinha uma mensagem, tudo tinha um cuidado. Madonna sabe o que quer passar para o público e sabe como fazê-lo.

Sem a menor dúvida, o que de mais marcante ficou no show foi a consciência da rainha. É muito claro que tudo ali tem o dedo dela, que é do jeito dela, que ELA quer aquilo. Que Madonna é a donna de seu show.  E meu Deus, ela sabe como passar o que quer passar. De um jeito lindo, cuidadoso, impressionante. Impressionante é a palavra. Ela é donna.

Madonna.

Mesmo sem conhecer todas as músicas, o show envolve. Seja com os grandes hits ou com as menos conhecidas. E assim fui me envolvendo aos poucos e agradecendo mentalmente a oportunidade de assistir aquele show ao vivo. De ver Madonna ao vivo.

Não se é chamada de rainha do pop por acaso.

Eu antes costumava pensar que só a música importava. É obvio que ela é essencial e grande parte, pois Madonna é uma cantora e tida como a rainha de seu gênero. Mas Madonna é muito mais do que isso. Tanto que nunca conheci ninguém que fosse ao seu show somente para ouví-la. Mas Madonna não decepciona nisso, e se decepcionasse não ocuparia o posto de rainha. Ela pode e sabe cantar, mesmo que recorra ao playback em várias músicas. Mas ela faz um espetáculo muito maior que isso. Ela conduz todos os elementos para complementarem sua música e passar sua mensagem.

E que mensagem. Meu primeiro choro positivo foi no momento em que Madonna parou para conversar com o público e fez um discurso de amor incondicional e igualdade. Não foi um super discurso, mas vendo toda a trajetória dela, se sabe que aquilo é verdadeiro. Chorei por estar ouvindo aquilo e por estar no show de uma pessoa tão incrível. Incrível até nisso. E o público veio abaixo, como ela merece.

Li sabiamente em um liro que toda mulher ocidental tem uma dívida eterna com a Madonna. Concordei e comprovei isso ontem. Não só as mulheres, no entanto. Mas, mesmo sem ser fã n°1 dela, fiquei com um orgulho indescritível. Senti a importância daquele ser em cada pêlo do meu corpo.

Além da mensagem e do espetáculo, é impressionante a VIDA presente na Madonna. 54 anos, dança como qualquer novinha, inova muito mais do que qualquer novinha do pop. Quem diz que o show não empolga e/ou que Madonna já deveria ter se aposentado definitivamente não assistiu ao mesmo show que eu.

O show é muito bem dirigido, é espetacular.

Madonna explora a si mesma, e eu achei isso um dos pontos fortes. Ela usa toda sua carreira a favor dela. O show é super auto-referente, ela quer mostrar que aquilo é um show dela. Achei simplesmente demais a auto-confiança. Madonna SABE o que ela é e do que ela é capaz (para o bem e para o mal). E ela usa isso ao favor dela. Genial.

Para não dizer que não falei das flores, o show tem dois pontos negativos: Lil'Wayne e Nick Minaj, que fizeram participações especiais nas projeções do show. Pra mim, dois chorumes da música. Mas mesmo eles se encaixaram bem ao espetáculo regido com maestria. O longo atraso foi a única coisa que ainda não digeri. Mesmo que seja a Madonna, ainda acho uma falta de respeito com o público pagante. Mas odeio dizer que o show compensou tudo isso.

Já no meio do show percebi que tudo valeu a pena. E olhem que eu tinha tudo contra mim, mas Madonna se garante tanto que o espetáculo montado por ela simplesmente virou o jogo. Curti o que podia, fiquei feliz de estar ali. Ao contrário do resto do estádio, fiquei feliz que cortaram Like a Virgin. Amo o clássico, mas odeio com força a versão usada nessa turnê. Preferi o corte a ouvir uma das minhas preferidas em uma versão que acho terrível.

E aí chegou Like a Prayer.

Já não esperava mais nada do show, ele já me bastava. E então ouvi os coros de Like a Prayer. Sabia que me entregaria de corpo e alma nessa, mas mesmo eu me surpreendi. Comecei a cantar e quando vi estava chorando.

Desabei num choro feliz e de alívio enquanto cantava uma música super alegre. Desabei.

Não sei exatamente o porquê, essa música não me representa nada em especial. É, no máximo, uma síntese da Madonna. Mas chorei um choro que conto em uma única mão quantas vezes já soltei.

Chorei, vi o restinho do show de alma lavada. Fui para casa sabendo do pouco sono que me aguardava. Hoje as pernas doem, mas meu sorriso não cabe em mim. Mesmo depois desse texto enorme, ainda não consegui encontrar a palavra que defina meu sentimento. Talvez seja a mais simples delas: Madonna.